Comentário · Goodwill e ED IASB

Impairment de goodwill em 2026: o que muda na prática.

O Exposure Draft do IASB sobre divulgações de goodwill propôs mudanças que ainda dividem opiniões. A pergunta prática é: o que altera no dia-a-dia de quem testa impairment recorrentemente.

2026 · Comentário 4 min de leitura CPC 01 · IAS 36

O ED/2024/1 do IASB endereça uma queixa antiga do mercado: as divulgações sobre goodwill em demonstrações financeiras dizem pouco sobre se a aquisição original gerou o retorno esperado. Companhias com aquisições materiais tendem a divulgar valor recuperável próximo do valor contábil ano após ano, sem que o leitor consiga avaliar a evolução econômica subjacente.

A proposta do IASB caminha para exigir divulgações qualitativas mais profundas: objetivos da aquisição, métricas de monitoramento usadas pela gestão, e evolução dessas métricas ao longo dos anos seguintes.

O que muda para quem faz impairment

O teste técnico de recuperabilidade em si não muda. A IAS 36 / CPC 01 continua exigindo cálculo de value in use ou fair value menos custo de venda, e a UGC continua sendo a unidade de teste. O que muda é o entorno informacional do laudo.

Três efeitos práticos:

  • Documentação reforçada das premissas. Se a entidade vai divulgar métricas de monitoramento da aquisição, o working paper de impairment precisa rastrear coerência entre essas métricas e as premissas do DCF.
  • Maior atenção à coerência ano a ano. Premissas que mudam materialmente entre exercícios sem justificativa visível ficam mais expostas. O auditor terá ferramenta nova para questionar.
  • Pressão sobre identificação correta da UGC. Se as divulgações vão revelar o que a gestão monitora, fica mais difícil sustentar UGC desalinhada com a estrutura de gestão real.

O ponto que a discussão pública do ED ignora: a divulgação proposta cria incentivo para a gestão monitorar a aquisição com a mesma disciplina que monitora ativos próprios. O benefício de governança pode ser maior do que o benefício de transparência ao mercado.

Quando a regra chegar ao Brasil

O CPC tradicionalmente segue o IASB em harmonização contábil. A expectativa é que a versão final da norma seja adotada pelo CPC com defasagem de 12 a 24 meses após publicação pelo IASB. Empresas com aquisições materiais fariam bem em começar a estruturar a coleta interna de métricas de monitoramento agora, antes da exigência formal.